09 março 2010

A Senhora dos Bichos

É impressão minha ou o mundo está a fazer uma limpeza facial a grande nível e por isso anda a esfoliar tudo o que é país e cidade?

Começou com o Haiti, uma destruição em grande escala que pareceu um peeling da mãe natureza (que é solteira, note-se e por isso mais vaidosa), onde não só a barraca abanou, como foi toda abaixo.

Mas não me interpretem mal, aquilo parece ter sido coisa grave. Eu até tive aquele desejo altruísta de largar o emprego e toda a minha vida para ir enterrar os vivos e tratar dos mortos, mas como representante legítima da espécie humana este sentimento durou apenas até ao intervalo do telejornal, depois do qual tive uma afecção especial por aquele menino pastor que vive na serra e nunca antes tinha visto o mar, e há que dizer que estas histórias comoventes levam-me a lágrimita ao canto do olho… é isso e campeonatos de xadrez.

De qualquer maneira pareceu-me que passou depressa. A cura ou foi a Madeira ou então o jogo de futebol do Benfica. O futebol porque move montanhas e pelo visto eleva edifícios… a Madeira porque pelo menos depois da tragédia madeirense mais grave a seguir ao presidente, o Haiti deixou de ter qualquer tipo de destaque na comunicação social e por tal, como as notícias más é que correm depressa e as outras vão a coxear, leva-me a crer que a coisa em poucos dias ficou arrumada, afinal o entulho era quase todo de zinco.

A Madeira, que sofreu uma descarga dos céus maior que a descarga mensal do meu trono de porcelana… e olhem que é muita… também parece ter recuperado. Acho que foi um sismo no Chile que a curou.

Teve a sua semaninha de atenção, um programa musical e um desfile de roupa, e vá lá que deitou mais lágrimas aos portugueses que a catástrofe nos trópicos, mas a verdade é que também não nos deu muito tempo para sofrer pelos conterrâneos porque a seguir o Chile tremeu e dias depois, só naquela de não se deixar ficar, tremeu a Turquia.

Será que só eu é que vejo laivos estranhos em tanto tremelique? Já estou a imaginar o planeta todo a fazer a onda para comemorar o ano internacional da biodiversidade, sendo que os braços são as placas tectónicas e, inevitavelmente, nós somos os pêlos do sovaco…

De qualquer maneira, nos meus poucos anos de vida nesta imensidão de planeta, já me sinto no direito de usar a expressão “Isto no meu tempo não era nada assim”…

A coisa, cientificamente falando, é bem simples: A Terra, ou mãe Natureza para os amigos, diz-se que é uma solteira encalhada e muito sofrida na vida.

A Terra nasceu, há muitos anos atrás, como quase toda a gente nasce… Depois de conjunto de forças violentas e algumas prazerosas, que num momento de loucura levaram ao aumento da massa e à formação da gravidade. Quando nasceu começou por ser muito adorável e por tal atraía tudo à sua volta, tendo por isso a mãe Lua e o pai Sol sempre ao seu redor sem nunca a deixarem sozinha, havendo no entanto algumas tias e primas que de vez em quando choviam para visitar os parentes.

Durante a sua adolescência a Terra passou a sofrer de Bulling dos colegas que andavam no mesmo universo, tendo passado largos anos a ser chamada de Azulona ou Mijona, por estar sempre molhada e ser composta maioritariamente por água…

Obviamente que ela não gostava… não tinha culpa de ser assim… e por isso começou a ser fria e gelada para com os outros… deixou de ter uma personalidade temperada e passou uma fase da vida gélida e insocial.

…. O tempo foi passando e a Terra começou a esquecer os insultos. Fez novos amigos… arranjou namorados… e de vez em quando fazia umas quantas loucuras que davam origem a espécies muito estranhas, das quais ela não se recordava a origem…

Começou a ficar mais sociável e a esquecer as diferenças. Começou a ser considerada uma gaja muito hot e sempre que passava por momentos mais necessitados entrava em erupção de tanto desejo…

Mas apesar de toda a loucura e de ter experimentado os desvarios mais extravagantes, a verdade é que a Terra nunca encontrou o seu planeta metade… Plutão era demasiado frio para com ela e Mercúrio era quente demais, o cabrão andava sempre metido com outras… Saturno já era casado, apesar de nunca respeitar os anéis que carregava, e embora tenha tentado com Vénus, os relacionamentos lésbicos não a atraíam … e foi assim que os milénios foram passando e a Terra foi-se contentado com as espécies que começou a coleccionar… começou a ser conhecida pela senhora dos bichos…

Algumas espécies optou por extinguir, ou por mijarem o tapete ou por comerem demasiado, outras decidiu aumentar a colecção e aumentar a gaiola para os ver crescer e serem felizes… Se bem que agora considera que aqueles bichinhos pequeninos que achava serem inofensivos, são os que estão a dar mais trabalho e a sujar e comer mais, mais até do que os grandes répteis que tinha inicialmente… se o arrependimento matasse…

Hoje a Terra encontra-se em menopausa. De vez em quando tem problemas de incontinência, e os calores são cada vez mais insuportáveis. Acha-se feia e gorda, e deixou se olhar ao espelho. Deixou de ter amor-próprio pelas curvas roliças de outrora.

A verdade é que agora a Terra está velha e cansada, e os bichos de estimação que deviam ser a sua companhia nesta fase terminal, acabam por ser os que dão mais trabalho e preocupações. Resta saber se ela acaba com eles todos para fenecer a sua vida em paz, ou se eles se apercebem do trabalho que estão a dar e começam a ajuda a Terra com estas hormonas difíceis de controlar.

Que tipo de animal vamos ser? Aquele que morde e faz ferida, ou aquele que lambe e cura com a saliva?

….

Claro que eu sou eu e a minha circunstância, e por muito que se chore no conforto do sofá de barriga cheia, essas lágrimas não vão ajudar quem não tem sofá nem a barriga cheia.

Mas nós somos assim, animais irracionais e muito pouco fiéis. Mal-educados e egoístas. Somos humanos, a pior raça que existe…

Isto tudo porquê?

Pelos pedreiros, electricistas, vendedores, canalizadores e ladrões em geral que me roubam todos os dias e roubaram o velho R5 do meu Pai…

Hoje é um daqueles dias em que faço dissertações para descrever desânimos… Se não vos pus a chorar, espero ao menos que vos tenha feito rir.

4 comentários:

  1. Olha...este post está 5*. ADOREI!
    Podes começar a dizer à Maria para desenhar as ilustrações para o segundo livro da série...descreveste o fenómeno Gaia de tal forma que a mim me puseste a chorar de indignação. É mesmo assim...somos uns ingratos...

    Beijos
    Gypsy

    ResponderEliminar
  2. Adoro este texto... e adoro este blogue... já tinha dito? Coitadinha da Terra... quase que lhe fazias o funeral antecipado... e não sei se estará assim tão longe... pelo menos, não me roubaram o carro (ainda...) beijinho

    ResponderEliminar
  3. Duas palavras.... A MEI :)nunca ninguém conseguiu descrever todos os fenómenos que aconteceram desde o Big Bang como tu :)Adoro a tua escrita miguxa :D

    Bêjo gostoso

    RoKi

    ResponderEliminar
  4. e a historia de Alice, lá continua....
    no
    ... continuando assim...

    mais logo, um novo capítulo

    um obrigada a quem segue (porque só vale a pena assim).

    Um especial convite, para quem ainda não mergulhou naquela história.
    ...é só uma história, apenas isso.

    obrigada
    e até logo
    Bj
    teresa

    ResponderEliminar